Crescimento das internações por IBD chama atenção para hábitos alimentares
A reportagem do G1 traz dados alarmantes: entre 2016 e 2025, as internações por doenças inflamatórias intestinais (DII) na região de Campinas aumentaram 66,2 %, passando de 198 para 329 registros. O maior número de casos ocorreu entre pessoas de 20 a 59 anos, embora também haja 56 internações de pacientes com até 19 anos e 116 de idosos. Esse aumento supera o observado em todo o estado de São Paulo, onde a taxa de crescimento foi de 41,4 %. O coloproctologista Hércio Cunha, citado na matéria, aponta a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa como as principais condições responsáveis por esse cenário e sugere que o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, bem como alterações na microbiota intestinal, podem estar associados ao incremento das internações.
Aumento das internações e perfil dos pacientes Os números divulgados revelam uma tendência que merece atenção tanto da comunidade médica quanto dos profissionais de nutrição. O fato de a maior concentração de internações estar na faixa etária de 20 a 59 anos indica que a doença afeta indivíduos em fase produtiva da vida, impactando qualidade de vida, produtividade e custos com saúde. Além disso, a presença de internações em adolescentes e idosos demonstra que a DII não escolhe idade, exigindo estratégias de manejo que considerem as diferentes necessidades nutricionais desses grupos. A reportagem também destaca relatos de pacientes de Valinhos e Jaguariúna que tiveram que adaptar a alimentação após o diagnóstico, reforçando a importância de um acompanhamento dietético individualizado.
Alimentação, ultraprocessados e microbiota: o que se sabe A relação entre dieta e DII ainda é objeto de estudo, mas há indícios de que o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados – ricos em aditivos, corantes e conservantes – pode influenciar a composição da microbiota intestinal. Alterações no equilíbrio dos microrganismos que habitam o trato gastrointestinal têm sido observadas em pacientes com Crohn e retocolite ulcerativa, embora não seja possível afirmar causalidade direta. O que se pode dizer, com base nas evidências atuais, é que dietas ricas em alimentos minimamente processados – frutas, legumes, grãos integrais e fontes de proteína de alta qualidade – tendem a promover maior diversidade microbiana, o que pode ser benéfico para a saúde intestinal.
É importante esclarecer que alimentos “fortificados” com vitaminas ou minerais não contêm probióticos, a menos que a rotulagem indique a presença de culturas vivas específicas (por exemplo, Lactobacillus ou Bifidobacterium). Portanto, ao buscar melhorar a microbiota, a inclusão de alimentos fermentados naturalmente (como kefir, iogurte com culturas vivas, chucrute ou missô) pode ser mais efetiva do que depender de produtos fortificados.
Orientações nutricionais e a importância do acompanhamento profissional Dra. Tatiane Ramos, nutricionista clínica e biomédica, destaca que a reportagem acertou ao enfatizar a necessidade de ajustes alimentares, mas acrescenta alguns pontos que merecem atenção. Primeiro, a restrição de alimentos deve ser feita de forma personalizada; por exemplo, a eliminação de fibras pode ser necessária em períodos de crise de retocolite ulcerativa, enquanto a manutenção de fibras solúveis pode ser benéfica em fases de remissão. Cada paciente responde de maneira única, e a dieta deve ser ajustada de acordo com a tolerância individual e o estágio da doença.
Segundo, a simples redução de alimentos ultraprocessados não substitui o tratamento médico. Sintomas de alerta – como sangue nas fezes, perda de peso inexplicada, febre ou dor abdominal intensa – exigem avaliação imediata por um gastroenterologista, pois podem indicar complicações que requerem intervenção clínica. A nutrição tem papel de apoio, mas não pode ser a única estratégia terapêutica.
Por fim, a prática clínica sugere algumas diretrizes gerais que podem ser úteis para quem convive com DII:
* Priorizar alimentos frescos e minimamente processados, favorecendo a ingestão de frutas, legumes e grãos integrais, respeitando a tolerância individual a fibras. * Incluir fontes de proteína de alta qualidade (peixes, carnes magras, ovos, leguminosas bem toleradas) para manter ou recuperar massa corporal, principalmente em pacientes que apresentam perda de peso. * Avaliar a necessidade de suplementação de micronutrientes (ferro, vitamina D, B12) em casos de deficiência comprovada, sempre sob orientação profissional. * Considerar o uso de probióticos com cepas específicas quando houver indicação clínica, evitando a suposição de que todos os produtos “fortificados” oferecem esse benefício. * Manter hidratação adequada, ajustada ao nível de atividade física, clima e condição clínica de cada indivíduo.
A adaptação alimentar deve ser acompanhada por um nutricionista especializado em doenças inflamatórias intestinais, que pode elaborar um plano flexível, monitorar a evolução nutricional e ajustar as recomendações conforme a resposta ao tratamento médico. Quando surgirem sinais de alarme, como sangramento retal, dor abdominal persistente ou perda de peso rápida, a prioridade é procurar atendimento médico imediato.
Em resumo, o aumento das internações por DII na região de Campinas evidencia a necessidade de políticas de saúde que integrem educação alimentar, diagnóstico precoce e suporte multidisciplinar. A alimentação pode ser uma aliada importante no controle dos sintomas e na manutenção da qualidade de vida, mas sempre dentro de um contexto de acompanhamento clínico adequado.
Fonte original: G1
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