**Crescimento acelerado das doenças inflamatórias intestinais no Brasil**
O levantamento apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, divulgado pelo G1, mostrou que a prevalência de retocolite ulcerativa e doença de Crohn aumentou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025, com projeção de chegar a 264 casos por 100 mil habitantes em 2035. O estudo, que analisou 337.539 pacientes atendidos pelo SUS, também apontou que a incidência – número de novos diagnósticos por ano – subiu de 9,35 para 12,34 casos por 100 mil habitantes, especialmente a partir de 2018.
Crescimento epidemiológico e seus possíveis fatores Os autores do estudo ressaltam que o salto observado não tem uma explicação única. Entre as hipóteses levantadas estão o crescimento da população, a maior visibilidade das doenças inflamatórias intestinais (DII) no cenário mundial e a melhoria nos métodos diagnósticos, que podem ter levado a um aumento da detecção. A concentração maior de casos nas regiões Sul e Sudeste, que também são as mais industrializadas, sugere uma possível associação com ambientes urbanos e com a exposição a agrotóxicos e à poluição de queimadas de cana‑de‑açúcar – fatores ainda pouco descritos na literatura, mas que merecem investigação. É importante frisar que, até o momento, não há evidência de causalidade direta entre esses fatores ambientais e o desenvolvimento das DII; eles permanecem como hipóteses que precisam ser confirmadas por pesquisas específicas.
Impacto no sistema de saúde e no paciente Com a mudança de perfil epidemiológico, o Brasil passa de uma condição considerada rara para uma doença crônica de grande peso sobre o SUS. Muitos pacientes são diagnosticados ainda na adolescência ou no início da idade adulta, o que implica acompanhamento por décadas e a necessidade de terapias de manutenção, incluindo medicamentos biológicos de alto custo. A projeção de aumento de 67 % até 2035 indica que a demanda por serviços de gastroenterologia, exames de imagem, colonoscopia e suporte nutricional crescerá significativamente.
Do ponto de vista clínico, a DII permanece sem cura; o objetivo do tratamento é alcançar a remissão clínica, controlando a inflamação e aliviando os sintomas. A decisão terapêutica deve ser individualizada, levando em conta a extensão da doença, a gravidade dos sintomas e a resposta a medicamentos. Em alguns casos, a dieta pode ser um coadjuvante importante, mas nunca substitui a avaliação e o manejo médico.
Como a nutrição pode apoiar o manejo A prática clínica em nutrição reconhece que a alimentação pode influenciar a qualidade de vida de pacientes com DII, principalmente no controle de sintomas como diarreia, dor abdominal e fadiga. Não há uma dieta única que beneficie todos, mas alguns princípios gerais podem ser úteis:
– Diversidade de alimentos integrais: priorizar frutas, legumes, verduras, cereais integrais e fontes de proteína magra ajuda a garantir micronutrientes essenciais e fibras solúveis, que podem ser mais bem toleradas que fibras insolúveis em períodos de atividade inflamatória. – Moderação de alimentos ultraprocessados: dietas ricas em aditivos, gorduras trans e açúcares simples têm sido associadas a um microbioma menos saudável, o que pode agravar a inflamação intestinal. Reduzir o consumo desses produtos pode ser benéfico, embora a evidência ainda seja indireta. – Adequação de micronutrientes: pacientes com DII frequentemente apresentam deficiência de ferro, vitamina D, B12 e folato, sobretudo quando há envolvimento do íleo ou uso prolongado de corticoides. Avaliações laboratoriais regulares permitem a correção por meio de suplementação orientada. – Abordagem individualizada de fibras e FODMAPs: em casos de sintomas recorrentes de tipo funcional (por exemplo, distensão ou flatulência), a dieta low FODMAP pode ser considerada temporariamente, sempre sob supervisão de nutricionista e gastroenterologista. Essa estratégia não é recomendada como tratamento de primeira linha para DII em geral. – Hidratação personalizada: a necessidade hídrica varia conforme a perda de líquidos por diarreia, clima e nível de atividade física. Recomenda‑se observar a cor da urina e a sensação de sede como indicadores práticos.
Essas orientações devem ser adaptadas ao estágio da doença, ao tratamento farmacológico em uso e às preferências culturais e pessoais do paciente. A colaboração entre equipe multidisciplinar – gastroenterologista, nutricionista, psicólogo e, quando necessário, cirurgião – é fundamental para otimizar resultados.
Orientação prática e limites Para quem já convive com retocolite ulcerativa ou doença de Crohn, o primeiro passo é manter o acompanhamento regular com um gastroenterologista, sobretudo se houver sinais de alerta como sangramento retal, perda de peso não intencional ou dor abdominal persistente. A nutrição pode contribuir para o manejo dos sintomas, melhorar o estado nutricional e reduzir a necessidade de intervenções agressivas, mas não substitui a terapia medicamentosa prescrita. Caso ainda não tenha sido avaliado por um nutricionista especializado em DII, procure esse profissional para elaborar um plano alimentar que respeite suas necessidades individuais e ajude a manter a remissão.
Em síntese, o aumento da prevalência de DII no Brasil sinaliza a necessidade de políticas de saúde mais robustas, de maior acesso a diagnóstico precoce e de suporte nutricional adequado. Enquanto a ciência busca esclarecer as causas desse crescimento, a prática clínica pode oferecer estratégias alimentares seguras e personalizadas, sempre em conjunto com o tratamento médico.
Fonte original: G1
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