Nutricionista Itaim Bibi – Dra Tatiane Ramos

Do intestino ao cérebro: como o café pode mexer com os dois

Café, microbioma e cérebro: o que a ciência recente indica

Um estudo publicado em abril na revista *Nature Communications* – divulgado pelo Estadão – investigou como a bebida mais consumida do mundo pode interagir com o intestino e, por consequência, com o cérebro. Foram avaliados 62 adultos saudáveis, metade dos quais consumia entre três e cinco xícaras de café por dia e a outra metade não tinha o hábito. Os pesquisadores analisaram humor, função cognitiva, estresse, saúde física, composição da microbiota intestinal e metabólitos presentes em fezes e urina, antes e depois de intervenções de abstinência e retomada do consumo, tanto de café com cafeína quanto de versão descafeinada.

Como o café pode influenciar o eixo intestino‑cérebro

Como o café pode influenciar o eixo intestino‑cérebro Os resultados apontam que tanto o café tradicional quanto o descafeinado são capazes de modificar a composição do microbioma intestinal. Os participantes que consumiam café apresentaram níveis mais elevados de algumas bactérias que, em literatura preliminar, têm sido associadas a efeitos benéficos para a saúde metabólica e neurológica. Durante o período de abstinência, foram observadas alterações nos metabólitos urinários e fecais ligados ao funcionamento cerebral, sugerindo que o microbioma responde rapidamente a mudanças na ingestão da bebida.

Em termos de parâmetros psicológicos, os dois tipos de café foram associados a melhora de humor, redução do estresse e diminuição da impulsividade após a fase de abstinência. O café com cafeína mostrou efeitos adicionais sobre atenção e ansiedade, enquanto o descafeinado esteve mais relacionado à memória, à qualidade do sono e à percepção de maior disposição física. Esses achados reforçam a ideia de que o eixo intestino‑cérebro funciona como uma via de comunicação bidirecional, envolvendo não apenas o sistema nervoso, mas também o sistema imunológico e as bactérias residentes no intestino.

Café com e sem cafeína: diferenças e limitações do estudo

Café com e sem cafeína: diferenças e limitações do estudo É importante destacar que o estudo utilizou apenas café instantâneo, o que pode limitar a generalização dos resultados para outras formas de preparo, como espresso, coado ou prensa francesa, que apresentam perfis diferentes de cafeína, polifenóis e outros compostos bioativos. Além disso, a amostra foi pequena (62 participantes) e composta por adultos saudáveis, o que impede extrapolações para populações com condições clínicas específicas, como doenças inflamatórias intestinais ou transtornos neuropsiquiátricos.

A presença de cafeína parece influenciar alguns efeitos neuropsicológicos, como atenção e ansiedade, possivelmente por sua ação de estimular neurotransmissores como dopamina e noradrenalina. Já o descafeinado, que mantém a maior parte dos polifenóis e antioxidantes do café, pode exercer benefícios mais marcados na memória e no sono, áreas que dependem de processos neuroplásticos e de regulação circadiana. No entanto, como os autores ressaltam, a diferença entre os tipos de preparo e a dose de compostos bioativos ainda precisa ser investigada em estudos maiores e com metodologias mais robustas.

Implicações práticas para o consumo diário

Implicações práticas para o consumo diário As diretrizes internacionais consideram seguro o consumo de até 400 mg de cafeína por dia – aproximadamente três a quatro xícaras de café, dependendo do método de preparo. Contudo, a tolerância individual varia bastante em função de fatores genéticos, hábitos de sono, nível de atividade física e sensibilidade ao estímulo da cafeína. Para quem já consome café habitualmente, a interrupção temporária pode revelar efeitos positivos no humor e no estresse, mas a retomada deve ser feita de forma gradual, observando como o corpo reage.

Para quem busca potencializar a saúde intestinal e cerebral, algumas recomendações podem ser úteis:

* Prefira preparos que preservem os compostos bioativos, como café coado ou prensa francesa, evitando excessos de açúcar ou cremes industrializados que podem contrabalançar os benefícios. * Avalie a possibilidade de incluir versões descafeinadas, especialmente se houver sensibilidade à cafeína ou se o objetivo for melhorar a qualidade do sono. * Observe sinais de alerta, como alterações persistentes de humor, ansiedade intensa, distúrbios de sono ou desconforto gastrointestinal, que podem indicar necessidade de ajuste ou avaliação médica. * Mantenha uma dieta rica em fibras, frutas, legumes e alimentos fermentados, que favorecem a diversidade e a estabilidade do microbioma, potencializando os efeitos positivos do café.

Em resumo, o café – tanto com quanto sem cafeína – demonstra potencial para influenciar o eixo intestino‑cérebro, mas os efeitos dependem da dose, do tipo de preparo e das características individuais de cada pessoa. Recomendo que quem deseja incorporar ou ajustar o consumo de café ao seu plano alimentar faça isso de forma consciente, monitorando a resposta do organismo e, quando houver dúvidas ou sintomas persistentes, procure a orientação de um nutricionista ou gastroenterologista.

Fonte original: Estadão

Sobre este conteúdo: este texto tem caráter informativo e jornalístico, com interpretação clínica da Dra. Tatiane Ramos, nutricionista clínica (CRN-3 73298). Cada organismo responde de forma diferente, e recomendações genéricas não substituem uma avaliação individual. Se você tem sintomas persistentes ou dúvidas sobre o seu caso, consulte um profissional qualificado.
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