Nutricionista Itaim Bibi – Dra Tatiane Ramos

Número de brasileiros com doenças inflamatórias intestinais cresce mais de 400% em 13 anos

**Aumento alarmante das doenças inflamatórias intestinais no Brasil**

A reportagem da *Folha de S.Paulo* traz dados do último Congresso Brasileiro de Coloproctologia, revelando que a prevalência de doenças inflamatórias intestinais (DII) – retocolite ulcerativa e doença de Crohn – subiu de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025, um crescimento de 427 %. No Sistema Único de Saúde foram identificados 337 539 pacientes, com aproximadamente 207 mil casos de retocolite ulcerativa e 99 mil de doença de Crohn. Esses números reforçam a necessidade de atenção tanto do setor de saúde quanto da população em geral.

O que a reportagem acertou e o que requer contextualização

A cobertura destaca, de forma correta, que as DII são doenças crônicas, sem cura conhecida, nas quais o sistema imunológico reage de maneira desregulada, provocando inflamação persistente no trato gastrointestinal. Essa explicação básica ajuda o leitor a compreender a gravidade da condição e a diferença entre as duas principais formas clínicas: a retocolite ulcerativa, que afeta o reto e o cólon, e a doença de Crohn, que pode envolver qualquer segmento do trato digestivo, da boca ao ânus.

Entretanto, a matéria não traz detalhes sobre possíveis fatores que podem estar contribuindo para esse aumento. Embora a literatura aponte para interações complexas entre genética, ambiente, microbiota e estilo de vida, ainda não há consenso sobre um único determinante. É importante, portanto, evitar conclusões simplistas que atribuam o crescimento apenas a mudanças alimentares ou a um único agente externo.

O papel da nutrição no manejo das DII

Como nutricionista clínica, vejo a alimentação como um aliado importante no controle dos sintomas e na manutenção do estado nutricional, mas não como tratamento curativo. Pacientes com DII frequentemente apresentam déficits de micronutrientes (como ferro, vitamina D e B12) e risco de perda de peso ou desnutrição, sobretudo durante surtos agudos. Uma avaliação dietética individualizada pode identificar necessidades específicas e orientar a inclusão de alimentos ricos em nutrientes, bem como a adequação calórica.

Algumas estratégias alimentares, respaldadas por prática clínica, podem ser úteis:

* Diversificação de fontes de fibra solúvel – durante períodos de remissão, fibras como aveia, psyllium e frutas com pectina podem favorecer a saúde da mucosa intestinal e a regularidade do trânsito. Em crises agudas, a tolerância à fibra pode diminuir, sendo necessário ajustar a quantidade conforme a resposta clínica. * Atenção às fontes de proteína – garantir ingestão adequada de proteínas de alta qualidade (carnes magras, ovos, leguminosas bem toleradas) ajuda a preservar massa muscular e a cicatrização de lesões intestinais. * Suplementação quando indicada – em casos de deficiência comprovada, a suplementação de ferro, vitamina D ou vitamina B12 deve ser feita sob orientação médica, pois a absorção pode estar comprometida. * Hidratação personalizada – a necessidade de líquidos varia conforme a atividade física, clima e estado de saúde. Pacientes com diarreia frequente podem precisar de reposição eletrolítica, enquanto aqueles em tratamento com certos fármacos (por exemplo, corticoides) podem ter necessidades diferentes.

É fundamental lembrar que sinais de alarme – como sangue nas fezes, perda de peso inexplicada, febre persistente ou alterações súbitas no padrão intestinal – exigem avaliação médica imediata. Ajustes nutricionais isolados não substituem o diagnóstico e o tratamento especializado, que podem incluir terapias imunossupressoras, biológicos ou cirurgias, conforme a gravidade da doença.

Quando buscar apoio especializado

A escalada nos números de casos de DII apontada pela *Folha de S.Paulo* evidencia que mais profissionais de saúde precisam estar preparados para reconhecer os primeiros sinais e encaminhar pacientes para gastroenterologistas. Para quem já convive com a doença, o acompanhamento regular com uma equipe multidisciplinar – gastroenterologista, nutricionista e, quando necessário, psicólogo – é essencial para ajustar o plano terapêutico, monitorar a nutrição e lidar com o impacto emocional da condição.

Em síntese, a reportagem traz informações valiosas sobre a magnitude do problema, mas é preciso complementar com orientações que reforcem a importância da avaliação médica e de um plano alimentar individualizado. A nutrição, quando bem planejada, pode melhorar a qualidade de vida, reduzir a frequência de exacerbações e prevenir complicações nutricionais, sem, contudo, substituir o tratamento médico.

— Dra. Tatiane Ramos, nutricionista clínica e biomédica.

Fonte original: Folha de S.Paulo

Sobre este conteúdo: este texto tem caráter informativo e jornalístico, com interpretação clínica da Dra. Tatiane Ramos, nutricionista clínica (CRN-3 73298). Cada organismo responde de forma diferente, e recomendações genéricas não substituem uma avaliação individual. Se você tem sintomas persistentes ou dúvidas sobre o seu caso, consulte um profissional qualificado.
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